A safra brasileira de cana-de-açúcar 2026/27 deve consolidar mais um ciclo de elevada oferta no Centro-Sul, mantendo o Brasil como protagonista global no abastecimento de açúcar e etanol. Ao mesmo tempo, o mercado começa a observar uma maior participação do etanol no mix de produção das usinas, em meio à pressão sobre os preços internacionais do açúcar e às incertezas climáticas e energéticas no cenário global.
Segundo avaliação da Hedgepoint Global Markets, o Centro-Sul brasileiro deverá produzir cerca de 635 milhões de toneladas de cana, configurando a quarta safra consecutiva acima de 600 milhões de toneladas. O volume reforça o cenário de ampla disponibilidade de matéria-prima e aumenta a pressão baixista sobre as cotações do açúcar no mercado internacional.
De acordo com Lívea Coda, coordenadora de Inteligência de Mercado da consultoria, o cenário climático tem favorecido o desenvolvimento da lavoura, com precipitações regulares e bons índices de vegetação nas principais regiões produtoras.
Clima favorece produtividade e qualidade da cana
As projeções indicam produtividade média próxima de 78,5 toneladas por hectare, acima do registrado na temporada anterior. Além disso, a expectativa de melhora no ATR (Açúcar Total Recuperável) amplia a capacidade industrial tanto para açúcar quanto para etanol.
Mesmo com a recuperação da competitividade do biocombustível desde o fim de 2025, a tendência ainda aponta para predominância do açúcar no direcionamento industrial das usinas. A Hedgepoint estima um mix açucareiro ao redor de 47,5%.
Segundo a consultoria, o atual cenário global de superávit na oferta de açúcar e a recente correção dos preços em Nova York reduziram a atratividade do adoçante, favorecendo ajustes graduais em direção ao etanol.
Etanol ganha espaço estratégico no mix das usinas
Com a recuperação produtiva em grandes exportadores do Hemisfério Norte, como Índia e Tailândia, o excedente global de açúcar se aprofundou nos últimos meses. Nesse ambiente, o etanol passa a assumir papel estratégico no equilíbrio do mercado brasileiro.
Analistas destacam que o redirecionamento parcial do mix para o biocombustível surge como alternativa econômica e operacional para absorver parte da oferta excedente de açúcar.
Ainda assim, o mercado segue atento às oscilações do petróleo, do câmbio e das bolsas internacionais. Alterações no preço da gasolina podem elevar ainda mais a competitividade do etanol hidratado no mercado doméstico.
Além disso, eventuais problemas climáticos em produtores do Hemisfério Norte ou no próprio Brasil podem voltar a impulsionar os preços internacionais do açúcar ao longo da temporada.
Déficit global de açúcar começa a entrar no radar
Apesar do atual cenário de ampla oferta, projeções da StoneX apontam possível mudança estrutural no balanço global do açúcar na safra 2026/27.
A consultoria estima déficit mundial de aproximadamente 550 mil toneladas no ciclo outubro/setembro, interrompendo dois anos consecutivos de superávit global.
Segundo Marcelo Di Bonifácio Filho, analista de inteligência de mercado da StoneX, a mudança representa uma inflexão importante na dinâmica internacional do setor.
O cenário reflete perdas de produção em algumas regiões produtoras devido a fatores climáticos, redução de área cultivada e mudanças nos fluxos globais de comércio, mesmo com o crescimento da oferta brasileira.
“Piso do açúcar” limita pressão sobre preços
Outro fator relevante para o mercado é o chamado “piso do açúcar”, nível em que o etanol passa a ganhar competitividade frente ao adoçante.
Estimativas da Hedgepoint indicam suporte próximo de 14,2 centavos de dólar por libra-peso para os contratos internacionais do açúcar. Nesse patamar, cresce a atratividade do etanol hidratado em diversos estados brasileiros.
Caso a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina avance para E32 a partir de agosto, o piso das cotações poderia subir para cerca de 14,6 centavos por libra-peso, reduzindo a necessidade de direcionamento adicional de cana para o etanol.
Brasil segue dominante no comércio global
Mesmo diante da ampla oferta mundial, o açúcar brasileiro continua sustentado pelo crescimento estrutural do consumo em economias emergentes da Ásia e da África.
O Brasil permanece como principal exportador global do produto, com disponibilidade estimada acima de 31 milhões de toneladas para exportação na safra 2026/27.
Entre os principais desafios monitorados pelo mercado estão a pressão baixista sobre os preços internacionais, as tensões geopolíticas ligadas ao setor de energia, os riscos climáticos associados ao possível fortalecimento do El Niño e as limitações operacionais das usinas para mudanças rápidas no mix de produção.
Além disso, o avanço dos investimentos em plantas de etanol de milho no Norte e Nordeste também deve ganhar relevância ao longo da temporada, ampliando a competitividade do setor brasileiro de biocombustíveis.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio



















